
🚂Linha do Sabor — História aprofundada de uma ferrovia esquecida🚂
A Linha do Sabor foi uma das mais singulares infraestruturas ferroviárias do nordeste transmontano. Concebida para ligar o Pocinho — ponto de entroncamento com a Linha do Douro — à região de Miranda do Douro, estendia‑se por 105 km através de vales profundos, planaltos isolados e pequenas povoações rurais.
Embora o seu destino final fosse Miranda, a estação terminal acabou por ser construída em Duas Igrejas, a poucos quilómetros da cidade.
Construção faseada e desafios de engenharia
A obra avançou lentamente, marcada por dificuldades técnicas e pelo relevo acidentado.
- 1909 — Conclusão da ponte metálica sobre o Douro, uma estrutura notável para a época, com dois tabuleiros paralelos: um ferroviário e outro rodoviário. Durante décadas, esta ponte foi a principal ligação entre os distritos da Guarda e Bragança.
- 1911 — Inauguração do troço Pocinho–Carviçais, o primeiro segmento a entrar ao serviço.
- 1938 — Finalmente, após quase três décadas de avanços e interrupções, a linha ficou concluída até Duas Igrejas.
A construção exigiu túneis, pontões e curvas apertadas, características que mais tarde condicionariam a velocidade e competitividade da linha.
A vida ferroviária ao longo do Sabor
Durante grande parte do século XX, a Linha do Sabor foi um eixo vital para as populações locais. Transportava não só passageiros, mas também produtos agrícolas, madeira, minério e outros bens essenciais.
Em 1975, ainda existiam quatro circulações diárias em cada sentido, incluindo o famoso comboio “misto”, que combinava carruagens de passageiros com vagões de mercadorias a granel — uma solução típica das linhas secundárias portuguesas.
O percurso completo entre Pocinho e Duas Igrejas demorava cerca de 3 horas e 30 minutos, reflexo das limitações técnicas e da sinuosidade do traçado.
Declínio e concorrência rodoviária
A partir dos anos 70, a linha começou a perder relevância. A melhoria das estradas e o aumento da oferta de autocarros tornaram o transporte rodoviário mais rápido e flexível.
Em 1980, já só circulavam dois comboios por dia em cada sentido, enquanto três carreiras de autocarro ofereciam alternativas mais rápidas — cerca de 30 minutos mais velozes do que o comboio.
O serviço de passageiros foi encerrado em 1986, deixando a linha exclusivamente dedicada ao transporte de mercadorias.
Mesmo assim, o tráfego continuou a diminuir até que, em Janeiro de 1989, toda a circulação foi definitivamente suspensa.
Pormenores pouco conhecidos da Linha do Sabor
1. A linha foi pensada para chegar a Espanha — mas nunca passou de Miranda
Pouca gente sabe que o plano inicial previa que a Linha do Sabor se ligasse à rede espanhola, através de uma extensão até Zamora.
A ideia era criar um corredor ferroviário transfronteiriço para escoar minério e produtos agrícolas.
O traçado chegou a ser estudado, mas a falta de acordo entre os dois países e os custos elevados fizeram o projeto morrer no papel.
2. A ponte do Pocinho tinha portagem — e era cobrada à mão
O tabuleiro rodoviário da ponte metálica do Pocinho funcionou durante décadas como uma ligação essencial entre margens.
O curioso é que a portagem era cobrada manualmente, por um funcionário que vivia numa pequena casa junto à ponte.
O valor variava conforme o tipo de veículo… e havia quem tentasse negociar.
3. A linha tinha troços tão íngremes que os comboios às vezes “patinavam”
Entre o Pocinho e Carviçais existiam rampas muito acentuadas.
Em dias de chuva ou geada, as locomotivas a diesel tinham dificuldade em ganhar tração, obrigando os maquinistas a avançar devagar, por vezes recuando alguns metros para ganhar balanço.
Os ferroviários chamavam a isto “fazer força ao Sabor”.
4. O comboio misto era tão lento que os passageiros saíam para apanhar fruta
Nos anos 60 e 70, o famoso misto parava em quase todas as estações e apeadeiros.
Há relatos de passageiros que, em certas épocas do ano, desciam para apanhar figos, uvas ou amêndoas enquanto o comboio fazia manobras de carga.
O revisor avisava quando era hora de voltar a bordo.
5. Em algumas estações, o chefe acumulava funções improváveis
Como a linha atravessava zonas muito isoladas, o chefe de estação era muitas vezes:
- responsável pelo correio,
- encarregado de registar nascimentos e óbitos,
- intermediário entre agricultores e comerciantes,
- e até “telefonista” da aldeia, porque o telefone da estação era o único disponível.
6. A linha transportou minério de ferro… mas muito menos do que se esperava.
A Linha do Sabor foi justificada, em parte, pela exploração das minas de ferro de Moncorvo.
Contudo, a produção nunca atingiu os valores previstos, e o transporte de minério foi sempre irregular.
Isto contribuiu para que a linha fosse vista como pouco rentável desde cedo.
7. O fim da linha foi decidido antes de muitos habitantes saberem
Quando o serviço de passageiros terminou em 1986, várias aldeias só souberam no próprio dia.
A informação circulava mal, e muitos passageiros habituais apareceram na estação… para descobrir que o comboio já não voltaria.
8. Algumas estações tinham jardins cuidados pelos ferroviários
Era tradição que cada estação tivesse um pequeno jardim.
Os ferroviários competiam entre si para ver quem mantinha o espaço mais bonito, com roseiras, trepadeiras e até pequenas hortas.
Hoje, alguns desses jardins ainda são visíveis, embora abandonados.
9. O último comboio de mercadorias circulou quase às escondidas
O encerramento definitivo em 1989 não teve cerimónia nem anúncio público.
O último comboio — carregado de madeira — fez o percurso final discretamente.
Alguns ferroviários guardam ainda hoje pedaços de carril ou placas como recordação.
10. Há troços da linha que ficaram submersos… mas não pelo Douro
Com a construção da barragem do Pocinho, parte do antigo traçado junto ao rio ficou submerso.
O curioso é que, noutros pontos, pequenas barragens agrícolas e açudes locais acabaram também por inundar segmentos da plataforma ferroviária, décadas depois do encerramento.
Hoje, a Linha do Sabor permanece como uma recordação nostálgica de uma época em que o comboio era o principal elo entre comunidades isoladas. Muitos dos seus edifícios, pontes e troços de via ainda subsistem, testemunhando uma obra de grande ambição para o interior do país.


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